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IVAN STRPKA
( REPÚBLICA ESLOVACA )
Nasceu em 30 de junho de 1944, na cidade de Hlohovec, Eslováquia ocidental. Poeta, ensaísta, escritor, tradutor eslovaco. Formou-se na Faculdade Filosófica da Universidade de Comenius, onde estudou eslovaco e espanhol. Junto com Ivan Laucik e Peter Ripka fundou o grupo de poetas chamado “Corredores Solitários” (1964) que à sociedade e cultura totalitária contrapôs o individualismo e responsabilidade pessoal. Esteticamente aderiu ao conceito de “poema aberto”. Em 1965 o grupo se encontrou com Allan Ginsberg. Ivan Stripka estreiou com o livro de poesias Curta infância dos lanceiros (1969) ao qual seguiram outros mais de dez volumes de poesia, livros de ensaios, como Câimbra da mão aberta e outros ensaios (1995), e o romance O refém (1999). Escreveu letra para os discos de rock do famoso cantor e compositor eslovaco Dezo Ursiny.
Durante os anos 1970 as suas obras não foram publicadas devido à censura política. Ivan Strpka foi co-fundador do movimento cívico “Opinião Pública contra a Violência”m qye conduziu a “revolução de veludo” na Eslováqui em 1989.
Depois do derrubamento do regime totalitário renovou, como redator-chefe, a revista Vida Cultural, proibida depois da ocupação soviética em 1968. Seus poemas foram traduzidos para a maioria das línguas européias, atualmente está sendo preparada a tradução para o chinês.
Ivan Stripka está em contato com a cultura lusófona. Em português foi publicado seu livro de poesias Planície, sudoeste e outros poemas (Quetzal Editores Lisboa, 1999). Em 1997 foi bolsista da Fundação C. Gulbekian em Lisboa. Co-produziu poemas de Fernando Pessoa, a antologia de poesia portuguesa e de poetas de Açores. Hoje em dia é redator-chefe da prestigiosa revista literária eslovaca Romboid.
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BRASIL EUROPA. Poesia da União. Projeto Gráfico: Christiane Borin de Souza. Brasília: Editora Moderna - Embaixada da Espanha, 20002. Capa: Silvana Matrievich, No. 10 967 Exemplar da biblioteca de Antonio Miranda
PLANÍCIE, SUDOESTE, UMA LETRA
Uma só letra — apenas legível em voz baixa,
em sonolência, em pleno dia — se escreve
na membrana ardente da Planície,
tensa entre um chão seco e um céu
úmido. Sinal já sem voz.
Sinal que ensinas às crianças, esvaído
na sombra atenta da escola rural,
com um afago breve, consolador e materno,
nas mudas cabeças que respiram serenas,
enquanto acompanhas o seu crescimento.
A janela abre para o vazio antes do relâmpago.
Por trás de três tapumes carcomidos
dormitam os crânios duros e ocos
dos antepassados.
PLANÍCIE, SUDOESTE, MÃE DE ÁGUA
Ó mãe, deixa que me banhe em ti.
(Oração hindu à divindade da água)
Penetro em ti, mãe,
mergulho. Rio horizontal sem nome,
circula sonolento e volta em vagarosos
meandros — quase adormece.
Sobre as pálpebras pesa
o óleo das trevas do meio-dia.
O vento frio, que percorreu
poeira ardente e a cintilante,
imóvel, tão pesada espessura da folhagem,
dilui o sono cada vez mais densos
na desconhecida e secreta armadura de pele,
mergulhando
na viva imobilidade,
no mais puro fundo, sem voz
e sem rosto.
A tua agonia faz-me renascer,
longe das planícies faiscantes,
onde floresce em todas as direções
a minha própria antimorte.
O cavalo invisível, luzidio de suor,
continua a correr ao vento, mas nem um
passo o desvia do círculo indefinível.
A casca fecha-se para sempre na sua
fulgurante inacessibilidade. Estamos
para além do nosso próprio nascimento.
O último vislumbre
despenha-se vogando pelo ar.
Não há caminho de regressos. A água está
sozinha.
Ó mãe, deixa
Que me banhe em ti.
Poemas do livro Revinsko, jubozápad. Smlr´matky
(Planície, sudoeste. Morte da mãe.) Editora Modrý Peter, 1995.
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Página publicada em fevereiro de 2026.
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